Em tempos de coronavírus, ninguém quer o coração mais fraco pela dengue

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Apesar de a dengue ter perdido o protagonismo na mídia para o coronavírus, o mosquito Aedes aegypti não tirou férias. Ao contrário: um boletim epidemiológico do início de fevereiro do Ministério da Saúde aponta que o número de casos prováveis da doença para as primeiras cinco semanas do ano foi 19% superior aos notificados no mesmo período do de 2019. Em outras palavras: os cuidados da população e das autoridades de saúde com a dengue não devem, de jeito nenhum, ser renegados a segundo plano.

Outra má notícia é que as doenças associadas ao mosquito — que também transmite zika e chikungunya — podem ocasionar complicações cardíacas em uma parcela nos infectados, como a miocardite. Isso ocorre porque essas infecções desencadeiam uma resposta de defesa (a inflamação) que eventualmente se torna excessiva e acaba atingindo outros órgãos, a exemplo do coração.

A miocardite pode levar ao crescimento do coração e provocar arritmias, algumas vezes graves. Entre os sintomas mais comuns estão dor no peito, palpitações, sensação de cansaço e falta de ar. Quando essa complicação dá as caras, as reações normalmente aparecem entre uma e duas semanas após a contaminação pelos vírus.

Apesar de, na maioria dos casos, o coração voltar ao normal depois do período de inflamação, o tratamento da miocardite deve ser precoce e incluir acompanhamento de um especialista, a fim de evitar sequelas e o aparecimento de outras doenças cardiológicas.

Ao contrair dengue, os membros dos grupos de risco — pessoas acima de 60 anos, cardiopatas e aqueles com patologias crônicas em geral — precisam buscar orientação médica para saber, inclusive, sobre parar ou não de tomar medicações de uso contínuo. Em pacientes com problemas de coração, a dengue grave (conhecida por dengue hemorrágica) demanda a suspensão dos medicamentos que “afinam” o sangue, temporariamente. Em outras situações, a queda na pressão arterial provocada pela dengue pode exigir a redução ou abandono temporário de certos remédios para hipertensão. Ou seja: cada caso precisa ser avaliado, de forma individualizada, pelo médico.

Mas vale reforçar que, estatisticamente, a maioria dos acometidos pela dengue não apresentarão cardiopatias derivadas da infecção viral. Nem por isso a vigilância deve ser menor.

Outro ponto a ser destacado é que, via de regra, o que leva as pessoas infectadas pelo vírus a óbito não são as miocardites, mas sim a dengue grave. E são os pacientes infectados pela segunda vez que estão mais sujeitos a desenvolverem essa modalidade da doença, que compromete o funcionamento dos órgãos, provocando sangramentos internos e perda de líquidos.

Portanto, lembre-se: mesmo em tempos de coronavírus, o mosquito Aedes aegypti não sai de cena. Até porque não se sabe se uma coinfecção com as duas doenças comprometeria ainda mais a nossa saúde. Informe-se e previna-se.

*Luciano Drager é cardiologista, diretor científico da SOCESP (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo) para o biênio 2020-2021 e professor associado do Departamento de Clínica Médica da FMUSP.



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